São Paulo, 8 de Fevereiro de 2010
Nós do Centro Acadêmico Lupe Cotrim gostaríamos de manifestar à comunidade uspiana repúdio às atitudes recorrentes de discriminação contra pessoas com problemas de saúde mental, que neste ano tornaram-se explícitas na designação de “Gautiê por um dia” para a atividade do tradicional pedágio da Semana dos Bixos. Também não compactuamos com uma das perguntas do questionário no final do Manual dos Bixos, por colocar o Gautiê como um “extraterrestre”.
Como muitos dos estudantes da ECA sabem, o Gautiê vive na Vivência e na Prainha da ECA há anos e tem transtornos mentais. Entendemos que expor ao ridículo, rebaixar, e adotar qualquer postura que discrimine a ele ou a qualquer outra pessoa diferente dos nossos padrões de normalidade não contribuem para uma melhoria ou solução da situação, nem do que implica para aqueles que convivem com ela. Ao contrário, apenas reforça a dicotomia entre um padrão considerado normal de conduta e o comportamento desviante, estigmatizando o diferente e retirando-o do convívio social, como já foi tentado por alguns estudantes da ECA, por exemplo, ao sugerirem que alimentos fossem negados ao Gautiê.
Por fazer parte da Comissão da Semana dos Bixos 2010 da ECA, o CALC se coloca entre os responsáveis e pede desculpas à comunidade ecana pelas escolhas discriminatórias, preconceituosas e que atentam contra a dignidade humana daquele que nos é diferente.
Acreditamos que a solução para essa situação, com a participação de todos os direta ou indiretamente envolvidos, está no diálogo, estudo e debate de questões referentes à relação entre marginalização e saúde mental..
E é nesse sentido que o CALC vem trabalhando, ao buscar dados sobre a história do Gautiê e entidades de apoio a pessoas com transtornos mentais. No entanto, reconhecemos que os esforços, até então, despendidos nessa direção ainda não foram suficientes. Por isso, planejamos aprofundá-los promovendo debates e seminários sobre o tema, que envolvam toda a comunidade da ECA e os demais interessados das outras entidades da USP, bem como da sociedade em geral.
Por fim, manifestamos à comunidade ecana nossa profunda decepção com aqueles que insistem em tratar uma questão que é de todos nós como algo tão absurdo que possa ser chamado de “extraterrestre”. Não, os problemas relacionados ao Gautie e sua presença na ECA são reais, terrestres e estão ao nosso lado. No entanto, há quem insista em fechar os olhos para a realidade da falta de políticas públicas para tratar da exclusão de pessoas com transtornos mentais e ainda achar graça disso.
Gestão Levante! É tempo de fazer tempo
Centro Acadêmico Lupe Cotrim 2010
Escola de Comunicações e Artes
Universidade de São Paulo



