Relato – USP campo de guerra – debate Chauí e Cândido

Publicado: 16 de junho de 2009 por csouzaramos em Uncategorized

O relato abaixo foi escrito pela estudante Mariana Franco, do segundo ano de Jornalismo.

Pessoas. Estive no ato/debate de repúdio à PM no campus, que aconteceu hoje na Geografia. Falaram o Professor Antonio Cândido e a Marilena Chauí. Como foi simplesmente muito bom o que eles falaram, vou passar aqui um pouquinho do que pude anotar para vocês.

A Marilena Chauí contou de um manifesto da qual participou na ditadura, grávida de 7 meses, no qual teve de fugir da brutalidade da polícia também, e por isso seu filho nasceu prematuro. A partir daí, expressou sua tristeza com essa história que se repete ciclicamente: no Brasil a Polícia sempre é chamada contra a população.

“É expressivo que em uma única gestão, a PM tenha entrado no campus duas vezes (2007 e 2009). Acontece que chamar a polícia tornou-se a forma natural de se lidar com reivindicações e movimentos sociais. E isso se tornou uma forma natural porque não há na universidade espaço para discussão e debates das decisões.

A estrutura de poder é vertical e centralizada, e o necessário não é apenas gritar ‘Fora Suely’. Palavras de ordem se esvaziam. Temos de conhecer contra o que estamos lutando, para então buscar o que trará mudanças verdadeiras. É necessário desestruturar essa estrutura de poder vertical e centralizada que há na universidade, para que assim abra-se espaço de participação e debate entre todos.

Por outro lado, temos que lutar também contra a imagem errônea que a mídia está passando do movimento. Os meios de comunicação alardeiam que o movimento quer destruir a universidade, impedir que estudantes estudem, que professores deem aula, que trabalhadores trabalhem, que se continuem as pesquisas. Nós não lutamos pela destruição da universidade. Tudo o que fazemos há décadas é lutar pela educação. Precisamos lutar contra essa imagem errônea que a mídia passa sobre nós.

Nossa função como profesores e estudantes universitários é Pensar. Pensar tudo o que acontece aqui. Nesse sentido é necessário também pensar e questionar a Univesp, pela defesa da educação de qualidade. Igualmente, não apenas gritar “Fora Univesp”, mas procurar conhecer e entender, e procurar soluções verdadeiras para o problema da educação.

Vocês fazem parte da história do movimento de lutas. Não foram os primeiros e nem serão os últimos. Neste país, a polícia sempre volta. Enquanto o Brasil não mudar, ela continuará voltando. Mas não é por isso que devemos nos resignar.”

Depois dela, falou outra professora. Perdão, perdão, não me lembro o nome dela, mas reproduzo suas palavras:

“É difícil falar depois de Marilena Chauí. Eu concordo com tudo que ela disse.

Cada um tem suas armas. A arma de professores e estudantes é intelectual. A nossa arma é esclarecer os pensamentos e colocar ordem nas ideias. Nós reclamamos da política de nosso país, mas vemos na universidade repetido este mesmo modelo político autoritário e oligárquico.

Nós somos essencialmente seres políticos. Seres políticos buscam por meio do diálogo, do debate e da participação, o bem público. Não estamos aqui apenas entoando palavras de ordem. Estamos pensando e buscando o bem público.

E é importante dizer: somos seres políticos porque fora da política só resta a violência.”

Em seguida veio o Antonio Candido. Perdão se não reproduzo tudo que ele disse porque ele era tão cativante que não consegui anotar enquanto ele falava.

“Estou aqui porque protesto veementemente contra a presença da polícia dentro do campus. O direito mais sagrado dentro da universidade é o direito de debater, discutir, sem pressões externas. Não há mais nada a dizer.”

… mas ele disse muita coisa mais. Falou bastante do surgimento da faculdade de Filosofia, e das mudanças que isso trouxe para a universidade.

“As faculdades tradicionais, os cursos de direito, medicina, são faculdades de formar elite. Não importa a origem da pessoa, se ela é humilde, passando pos essas faculdades ela sai com mentalidade de elite, conservadora.

A faculdade de filosofia, desde seu começo, foi o inverso. Naquela época havia pouca presença de mulheres nas faculdades tradicionais. No curso de direito haviam 294 homens e apenas 6 mulheres. Na faculdade de filosofia desde o começo havia mulheres e isso foi muito importante.

A partir da faculdade de filosofia a universidade passou a estudar as minorias, as camadas baixas da sociedade, ou seja, a estudar verdadeiramente a sociedade.

O que fazemos agora é uma continuação disso. Pensando no que acontece aqui e lá fora, lutando pela educação de qualidade em todas as instâncias, estamos lutando para aproximar a universidade da realidade social do nosso país.”

Em outros e-mails o pessoal já mandou toda a agenda de mobilização desta semana. Lembrando que na quinta-feira tem ato unificado. A concentração é ao maio-dia no vão livre do MASP, e sairá em seguida a passeata rumo ao largo São Francisco. A partir das 10 da manhã sairão ônibus para lá de diversas unidades da USP.

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