Textos: Núcleo de Gênero

Publicado: 9 de maio de 2011 por Lupe Cotrim em Gênero
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Trechos do Livro: “Budas Ditosos” – monogamia, bissexualidade e pudismo feminino:

BISSEXUALIDADE:

“Já quatro pessoas é mais complicado. É possível, mas não é fácil, a não ser se for na base da troca vez por outra e outras variações. Todo mundo embolado não é bom.

Ou então é disfarce, já vi isso acontecer. Por minha causa, uns dois ou três homens, que eu encorajei e elogiei na hora, praticaram vários atos a que antes se recusavam. Muitos resistiam a Fernando no começo, mas acabavam cedendo, até porque tanto ele como eu éramos muito hábeis nesse setor. Se o sujeito permitia que Fernando o chupasse e não ele a Fernando, tudo bem, desapontava um pouco as mulheres, mas Fernando queria chupá-lo de qualquer jeito, reciprocidade ou não, porque não tinha essas frescuras. E a gente aplaudia e mostrava admiração e tesão redobrada por Fernando e, embora não forçasse a barra ou recriminasse o refratário, deixava visível que ele era assim uma espécie de bobo.

As mulheres sempre se revelaram ótimas nisso, a maior parte me ajudava muito a convencer os maridos e namorados a transar com outros homens na nossa presença ou com a nossa participação. Você pode pensar que não, mas as mulheres curtem isso, talvez muito mais do que a maioria suspeita, não me lembro de uma que tivesse experimentado e não tivesse gostado. Então, nas trepadas de quatro, há freqüentemente disfarces, que, quando eu descobria, desmascarava logo e encorajava a que liberassem logo tudo, fossem homens na expressão da palavra, fossem os fodaços que nós sempre quisemos que eles fossem. E um fodaço cheio de limitações não pode ser um fodaço. Que um não curta certas coisas, tudo bem; um camarada pode gostar muito de comer outro e não querer dar para esse outro, assim como esse outro pode muito bem só querer dar, ou dezenas de vice-versas.

Assim como pode não se sentir tesão por determinada pessoa, ou tipo de pessoa, pode-se até só ter tesão por um tipo de pessoa exclusivamente, embora isso já seja doidice. Mas que se seja absolutamente infenso a toda e qualquer coisa com o mesmo sexo, aí não, aí é limitação grave, não há um homem ou mulher completo, no caso. Todo homem que disser que nunca, na vida toda, sentiu nenhuma tesão por absolutamente nenhum outro homem, até um belo transexual ou um efebo, mas nenhum mesmo, ou está mentindo ou se enganando. O mesmo para as mulheres, que reconhecem esse fato com muito maior facilidade, talvez porque não tenham que ser machos como os homens e não vivam tão assustadas o tempo todo.”

 MONOGAMIA:

“Porque também acho esse negócio de cornidão o maior atraso de vida, ninguém é monógamo, nem homem nem mulher, só degenerado mesmo, masoca, deslibidado, doente da cabeça gravemente. Ficar casado com a mesma pessoa a vida toda, ótimo; até tenho admiração sincera por esse tipo de santidade e pode-se mesmo alegar que passei a minha vida toda casada com Rodolfo e presentemente sou viúva dele. Agora, nunca ter querido dar uma escapulidinha de vez em quando, nunca ter fantasiado uma trepada fora é mentira.

Mentira que muito raramente pode ser sincera, mas, mesmo nestes casos, não deixa de ser mentira. Todo mundo é corno, mesmo que não seja, por uma mera questão conjuntural técnica. Sei de muita gente a quem esse reconhecimento incomoda tremendamente, traz mudanças de assunto, crises de melancolia, irritabilidade e surtos de suores frios em bibliotecas, livrarias e cinemas.

Alguns homens, até liberais, não suportam a idéia de suas mulheres verem fotos pornográficas, não querem que isso exista para elas, coitados. Acham que, por não deixarem que a mulher veja certos atos e observe o pau de outros homens, elas não vão fazer isso por conta própria se resolverem, ou passarão a vida na crença de que só o marido tem pau, o maior do mundo, e ninguém faz safadagem. E mulheres que criam caso porque seus homens vêem fotos de mulheres peladas, também coitadas. Luta mais besta não pode haver, melhor seria que todo mundo fosse foder numa boa e deixasse de aporrinhar o juízo alheio. Mas parece que a humanidade acabará e isso não acontecerá. Não existe ninguém razoavelmente normal que não pense, ou tenha pensado, em prevaricar. Nesse ponto, como em muita coisa mais, eu fui pioneira, numa geração obscuramente pioneira. Quando eu fui morar com Fernando, em 62 ou 63, nunca sei direito, já velha para os padrões da época, ele sabia tudo sobre mim e sabia até que eu tinha prometido a bunda a tio Afonso para quando voltasse de Los Angeles, só que, verdade seja dita, Fernando tinha certeza de que eu ia sacanear meu tio e não ia dar nada. Mas o resto ele sabia.

Única combinação: fodeu na rua, contava ao outro. Corolário: o fodedor ou fodedora da rua tinha que saber que a gente contava tudo um ao outro. Mas não contava realmente tudo, esse tipo de combinação nunca funciona cem por cento. E olhe que a gente comia muito as mesmas pessoas, o que facilitava as coisas. Não resolve, até ciúme aparece, é inacreditável. Mas é melhor do que nada, pelo menos a gente não mente nem finge e dissimula tanto, melhor que em muitos conventos.

Isso pode parecer bobagem, mas não é. Evita muita aporrinhação posterior e é fruto da minha experiência. Como dizia um professor maluco de Processo Civil, a respeito do corno, dói ao nascer, mas ajuda a viver. Teve gente que se negou a me comer quando eu disse que ia contar a Fernando e muita gente que se negou a comer ele, quando ele disse que ia me contar. Teve uma mocinha que eu comi aqui no Rio e me esqueci de fazer aviso prévio, não pensei que ela fosse se importar. Mas, quando eu estava com ela na cama outra vez e disse casualmente que já tinha contado tudo a Fernando, ela ficou nervosíssima, não acertou a conversar mais sobre nada e foi embora sem graça, desapareceu e até hoje finge que não me vê na rua. Mora aqui, nesta mesma rua, e só falta correr quando topa comigo.”

 PUDISMO FEMININO:

“A manobra de pegar no pau. Pegar no pau de forma que ele pense que é a primeira vez em que a indigitada pega num pau: nunca tomar a iniciativa e, apenas na terceira ou quarta tentativa, deixar, toda relutante e pudica, que ele puxe sua mão. E aí pegar de leve, como se estivesse tocando num bibelô de casca de porcelana, dedos hesitantes, mão quase flácida, até ele dar um risinho superior e grunhir “pode apertar”. E então ele explica, e você escuta atenta e receosamente, que é natural para a mulher inexperiente pegar daquela forma, mas agora você sabe, deve-se apertar. E aí, a princípio sem muita convicção, mas logo fazendo progressos, você passa a apertar à vontade e até a abrir a braguilha dele, que naquele tempo era de botão e nunca de fecho ecler, já que fecho ecler, para os machos mais ciosos de sua machidão, era coisa de veado, abrir com dois dedos habilidosos, na hora interminável em que ele começava a meter a língua em sua orelha e babar tudo. Até hoje é um mistério para mim a razão por que os homens consideravam de rigueur meter a língua nas orelhas das mulheres no começo dos dares-e-tomares, vai ver que eles trocavam informações sobre isso e acabaram formulando um ritual.

Não que eu seja absolutamente contra, mas a obrigatoriedade do lambuzamento às vezes dava uma certa exasperação ou impaciência.
Depois, graças a Deus, paravam, geralmente era só nas primeiras vezes.

Número dois: manobra para chupar. Isso era sempre, semprérrimo, a primeira vez. Era tal a obsessão dos homens pela primeira vez, que iam para a cama com uma mulher de quarenta e ela conseguia convencê-lo de que era a primeira vez em que chupava alguém. Que maravilha, eu nunca fiz isso, sabia? Só com você, nunca fiz com ninguém, só sabia disso por ouvir falar, nem acreditava, achei que ia ter nojo, mas com você eu não tenho, essas coisas. Ainda hoje, acredito que a maioria dos homens é assim, juventude descontraída e tudo. Outra coisa: nunca deixar que ele acabe logo na boca e, se por acaso acontecer, cuspir, lavar a boca, esfregar lenço e assim por diante. O pela primeira vez, nesse caso, era ainda mais importante do que o do chupar simplesmente. Mulheres casadas diziam aos amantes — e muitas ainda dizem, suspeito eu — que jamais fizeram ou fariam isso com o marido, e os cretinos acreditam, não existe coisa de que homem se gabe mais do que a amante fazer com ele o que não faz com o marido, tudo chute, armação. Relação retal, a mesma coisa etc.

Oh, é a primeira vez, devagar, tá? Grandes atrizes se perdem todos os dias.”

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