Carta do Calc aos ecanos – Preconceito e violência nos jogos universitários

Publicado: 21 de junho de 2011 por Lupe Cotrim em Atividades & Eventos, Pautas de Reunião
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Nesse período pré JUCA, somos bombardeados por uma série de provocações entre faculdades participantes da festa do “Chupa Mackenzie”. Provocações entre torcidas é algo tradicional e não é algo negativo em si, mas ao tentar se sobrepujar aos outros e desvalorizar os oponentes – finalidade da troca de provocações – acabamos caindo em agressões problemáticas em relação aos grupos mais perseguidos publicamente na sociedade: mulheres e gays.

Reza a lenda que a Festeca não tem meio, que no JUCA ninguém é de ninguém e, realmente, quando se está na pilha da viagem, os dias de jogos parecem descolados do dia-a-dia do resto do ano, seja na correria ou na várzea. Mas entre mazelas e libertinagens, o grande problema desse “desligamento” da realidade é que não se vê problemas em, no ambiente específico do JUCA, falar e fazer coisas que não são ditas e feitas o resto do ano. Ou alguém falaria para uma mackenzista no trabalho: “No Mackenzie só tem puta que não pensa!”? Acreditar que o que é dito no JUCA não faz nenhuma diferença no resto do ano torna boa parte dos alunos indispostos ao diálogo sobre direitos humanos dentro dos jogos.

Mas dentro e fora do JUCA, e no resto do ano, o Centro Acadêmico tem o papel de chamar atenção dos alunos para algumas causas que pioram nossa vida na universidade. E mesmo nessas épocas festivas, é prioridade do CALC contribuir para que haja cada vez menos machismo e homofobia na comunidade ecana. Pois acontecimentos que prejudicam esse setor “minoritário” (que têm menos voz que o discurso “oficial” masculino hétero branco, mesmo não sendo menor em número) é uma preocupação constante do CALC, cuja gestão Pandora tem suas idéias baseadas, entre outros temas, no feminismo e na luta LGBT, se colocando contra a heteronormatividade repressora de liberdades.  

E é nesses momentos que se faz ainda mais necessária a contribuição do CALC contra preconceitos, afinal, sempre sobram para as mulheres e gays os piores hinos e gritos provocativos e violentos. Violência esta que vai além dos agarrões indesejados, dos beijos forçados, ou até do estupro e do sexo não consentido –  entre os piores ataques, estão os psicológicos e subjetivos,  conhecidamente os acontecimentos mais numerosos. Estamos falando de cantadas – e até agressões verbais (“gorda”, “feia”, “veado”), algo comum no JUCA –  nas ruas da cidade, em festas conjuntas, jogos, etc.

Mas além dessa violência mais personalizada, existe a violência mais generalizada. Que são os gritos em ginásios, as músicas “oficiais” das torcidas, imagens de mascotes, danças… um verdadeiro universo simbólico que acaba usando mulheres – e referências a elas, principalmente à anatomia relacionada ao feminino – e gays como arma de guerra.

“No Mackenzie só tem puta que não pensa…nelas cabe o que eu quero sem problema”

“Se arrombar mais sua boceta(…)”

– trechos de música da PUC direcionada ao Mackenzie

“Ecana vagabunda, eu vô comê sua bunda, e sua boceta (…) vô chupá suas teta!”

música direcionada à ECA

Ora, com poucos exemplos fica provado que a tática mais usada para atacar o oponente, é atacar as mulheres. E, além de atacar as mulheres de outras torcidas, é muito comum utilizar as mulheres de sua faculdade como mercadoria para se sobrepor aos outros. Por exemplo, “aqui tem mais gostosas” (FAAP). Com esse tipo de argumentação, as mulheres se tornam um produto, e isso as desumaniza, e tem consequencias terríveis como a falta de respeito, a objetificação, que é o que leva, nas últimas consequências, à agressões e ao sexo não consentido.

“Na ECA só tem viado”

-“acusação” de outras faculdades

“Seu cu só sai de ré”

-música da torcida ecana

Quanto aos gays, apesar de o senso comum acreditar que eles já são bem aceitos e recebidos na nossa faculdade, é só se lembrar das últimas grandes festas da ECA e QiBs. Não são raros os casos de homofobia e lesbofobia, humilhação de colegas apenas por não serem héteros – na maioria dos casos, os agressores não são ecanos, mas a violência de alguns é um problema de todos nós. E nos jogos não é diferente. Como demonstram os exemplos acima, o fato de ser gay ainda é visto como algo pejorativo. Uma postura repressora que contrasta com a imagem que vende o JUCA, de ser aberto e plural.

Aos que acreditam que o mundo não é machista, ou ainda que isso não é um problema que nos diz respeito, recomendamos atentar para a profunda pesquisa feita pela Fundação Perseu Abramo, que chegou ao famoso número de 2 mulheres espancadas violentamente a cada 5 minutos no Brasil. Além disso, é velho conhecido nosso o fato de o Brasil ter o maior número de assassinatos de gays do mundo, motivados por ódio. Esses números mostram que os problema do machismo e da homofobia não são psicológicos, nem subjetivos apenas, eles são concretos, e assassinos.

A ECA, como parte de uma universidade, tem o dever de transformar a sociedade, não de reproduzir seus estereótipos, logo, deve responder a esse problema. Essa concepção não é algo subjetivo, ela está prevista na Lei de Diretrizes e Base, que rege todas as instituições de ensino do Brasil.

Nossa escola forma bibliotecários, atores, jornalistas, músicos, publicitários e uma série de outros profissionais e acadêmicos, que poderão ter uma grande influência no mercado e na sociedade. É dever de todos, em suas especialidades e em sua cidadania, contribuir para diminuir essas estatísticas. Afinal, colaboraremos para a cultura e para a produção humanística do país, e cabe a nós reproduzir ou não esses padrões excludentes, que reforçam o papel secundário destinado a mulheres e a gêneros sexuais não héteros, como gays e transgêneros.

Oras, por que seria o JUCA um espaço tão descolado do resto do ano? Temos que combater o machismo e a homofobia também nesse lugar. Pois ele reverbera no campus, no resto do ano. O CALC pede, com essa carta, um esforço de todas e todos para atentarmos a essas questões. Não estamos falando de moralismos, ou mesmo querendo transformar o JUCA nas olimpíadas dos ‘atletas de Cristo’. Acontece que tudo é mais divertido e tesudo sem opressão! Nos valorizemos.

Que caminho nos resta seguir? Não cabe ao CALC dizer que gritos devem ser gritados, que letras de música devem ser escritas. Mas cabe a nós, sim, atentar para agressões que são vistas como normais. Tem sido assim, mas não precisa ser assim sempre, podemos mudar e fazer jogos ainda divertidos, sensuais, mas com equidade e respeito. Sem prejudicar a uns, sem descartar seres humanos.

“Somos mulheres e não mercadoria”

“Machismo não desce redondo”

“Homofobia broxa”

Centro Acadêmico Lupe Cotrim

*O CALC parte da premissa de que a sociedade brasileira valoriza mais os homens héteros, brancos, e ricos, do que as outras muitas opções que existem. Valorizados tanto economicamente, tendo maiores salários, quanto culturalmente. De forma que, a opinião pública, mesmo sendo feita de muitas vozes, cores e sexos, é masculina hétero branca. E como se não bastasse isso, os “outros”, são violentados em todas as esferas da vida, de muitas maneiras possíveis. Desde publicidade, cargos de chefia públicos e privados etc.

Links úteis:

Carta sobre caso de Lesbofobia e Racismo na USP

Vídeo Calourada Unificada da PUC

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comentários
  1. Renan disse:

    Sou aluno da PUC e não cantamos essa música que parodia “A banda mais bonita da cidade” uma vez sequer.
    Essa música teve repercussão no youtube e foi feita por alguém X, mas não teve adesão dos alunos e, portanto, o trecho que cita a música é inválido.
    Mas gostei do post e não quero dizer a Puc não tenha músicas machistas tbm…

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